A vida e tudo o mais
que achas tu que as pessoas procuram? Nunca tiveste jeito para discutir estas coisas. Nem paciência. Hoje tive uma 'daquelas' conversas com um amigo. Demolidoras. Não pelo interlocutor, mas pelo conteúdo. Daquelas que não gostavas de ter. De que fugias a sete pés se pudesses. Fiquei a precisar de colo. Porque por mais que tentemos não pudemos evitar pensar que... que andamos (andámos desde sempre?) a fazer tudo certo mas com as pessoas erradas. Tipo 'erros de casting'ou de 'entrada em cena'. Estás a ver o filme? A vida, pois. O resultado, concluímos nós... é que nos cansamos. E cansados estamos ambos de errar sistematicamente. A apostar tudo no cavalo errado. Gestos que já não sabemos repetir, porque os fizemos tantas vezes que agora já não fazem sentido. Conversas que não queremos ter porque já as tivemos tantas vezes que cada palavra nos soa a um texto decorado. E, no entanto, gostávamos de repetir gestos e conversas. E sorrisos. Porque é que achas que, a certa altura, nos cansamos da vida e de tudo o mais? Achas que é mesmo assim? Que nos cansamos de pensar encontrar o que não procuramos e de nunca encontrar o que pensamos procurar? Estou cansada, sabes? De me dividir. Tenho andado numa de revivalismo a ouvir o Jorge Palma. Acho que só agora ouvi com ouvidos de ouvir o 'Só'. Duas almas em guerra, fazer a cama na encruzilhada e chamar casa a esse lugar? Estás a ver o género... Decerto te lembras. Nós nunca ouvíamos Jorge Palma, a não ser em algum bar a acompanhar a guiness... mas sei que o ouvias antes de mim, tal como eu o ouvia antes de ti. Coisas da vida e tudo o mais. Por vezes penso que quando te conheci não foste (ainda não eras) um erro de casting e entraste em cena na altura certa. Foi isso que nos conduziu a uma certa vida e a um certo tudo o resto. Isso perdeu-se agora que já não estás aqui. A cada erro, apercebo-me que contigo foi diferente porque eras tu e porque eramos tão novos e tão cheios de paciência... que só podia ter sido assim. A cada erro, agora, vou sabendo que já não quero ninguém para construir nada. Porque já não sou capaz. Não, não foste tu. Fui mesmo só eu. E a porra das circunstâncias que criámos.
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