Friday, June 17, 2005

Acordar tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr
e a noite foi tão luminosa quanto a mota que falhou a curva
- e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos por assassinos
- e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso
simulando a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

- Al Berto / Jorge Palma-

12 Comments:

Blogger Sara Mota said...

...

:))*

20.6.05  
Blogger Elisa said...

:)))) amigateatro. Onde já vi esse nome? Nos degraus de laura? Bj

20.6.05  
Anonymous Anonymous said...

"irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água"

este poema é lindíssimo!!

24.6.05  
Blogger Elisa said...

é. Lindíssimo.

24.6.05  
Blogger Sara Mota said...

Nos degraus de laura, certamente... ou então no mundo à janela, que eu creio que já lá comentaste!!

;P

:)

26.6.05  
Blogger Elisa said...

Ah. Ou num sítio ou noutro. Obrigada pela visita. É sempre um gosto receber pessoas que são amigas do teatro... ou actrizes... ou ?
:-))

26.6.05  
Anonymous Anonymous said...

não acompanho o trabalho de Jorge Palma, conheço apenas aquelas músicas que foram rodando mais e acabaram por fazer parte do meu imaginário musical... por isso, grande surpresa sabê-lo a cantar/musicar Al Berto! :)

margem

13.7.05  
Anonymous Anonymous said...

Corpo Visível que me perdoe, mas não resisto a destacar as mesmíssimas palavras do poema:
"nada a fazer/ irás sozinho vida dentro/ os braços estendidos como se entrasses na água".
porque são belas, e um pouco tristes, e isto de ir pela vida lembra-me um outro dizer de Al Berto, menos melancólico, belo também:
"O viajante (...) separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentariazação empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo." (in "Anjo Mudo")

margem

13.7.05  
Blogger Elisa said...

margem,
muito obrigada pela partilha.

13.7.05  
Anonymous Anonymous said...

obrigada eu, por ir conhecendo aqui coisas novas, textos, sons, modos de dizer,...

Al Berto e Herberto Helder são dois autores que vou lendo, devagarinho, e relendo, e nunca tudo, e se calhar voltando sempre aos mesmos (textos), da poesia e da prosa, porque o "Anjo Mudo" e "Os passos em volta" tb são da minha eleição; depois, a memória é fraca, uma palavra lembra-me outra, mas o texto tenho de reler e assim sucessivamente, e isto resulta em leitura para a vida inteira.
há escritores assim!

margem

13.7.05  
Blogger Elisa said...

Pois há :)

13.7.05  
Anonymous Anonymous said...

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23.4.07  

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