A vida que resta é outra vida
Um dia destes alguém me perguntou se eu não sentia raiva. De ti. Após o espanto de te saber irremediavelmente sem a tua vida. Após o espanto de me saber irremediavelmente sem a tua vida. Que era também minha e me tiraste... sobraram dois ou três segundos de raiva. Alguns vagos desejos do poder de te ressuscitar para te bater. Até à morte. Depois desses segundos, eu, que nunca me lembro de sonhar, ou do que sonho... sonhei contigo e até me lembrei de haver sonhado.
E o que sonhei eras tu a entrar pela porta da nossa casa (que já não é nossa, nem sequer minha) com um braçado de livros. Dizias-me que tinhas viajado. Não me lembro já onde tinhas ido. No meu sonho. E que me trazias (como quase todos os dias) aqueles livros. Não me lembro dos títulos... mas gostei de todos eles como se os tivesse lido. A raiva? Abraçaste-me com força. Quando acordei compreendi-te como talvez nunca te tivesse compreendido. Decidi que estavas em viagem. Que haverias de me trazer mais livros (que eu leria) no regresso. A raiva? Afogou-se no abraço. Compreendi-te e compreendi-me. Quando acordei. Compreendi que já não estás. Compreendi que eu ainda estou. Que a vida que (me) resta é outra vida. Que a vivo como se ainda estivesses. Que perpetuo o que tu foste nos meus gestos. Que compro os livros que me comprarias se a tua morte não fosse o que restasse nesta outra vida. Não tenho raiva nenhuma. Só tenho a vida. Outra. E as saudades.
E o que sonhei eras tu a entrar pela porta da nossa casa (que já não é nossa, nem sequer minha) com um braçado de livros. Dizias-me que tinhas viajado. Não me lembro já onde tinhas ido. No meu sonho. E que me trazias (como quase todos os dias) aqueles livros. Não me lembro dos títulos... mas gostei de todos eles como se os tivesse lido. A raiva? Abraçaste-me com força. Quando acordei compreendi-te como talvez nunca te tivesse compreendido. Decidi que estavas em viagem. Que haverias de me trazer mais livros (que eu leria) no regresso. A raiva? Afogou-se no abraço. Compreendi-te e compreendi-me. Quando acordei. Compreendi que já não estás. Compreendi que eu ainda estou. Que a vida que (me) resta é outra vida. Que a vivo como se ainda estivesses. Que perpetuo o que tu foste nos meus gestos. Que compro os livros que me comprarias se a tua morte não fosse o que restasse nesta outra vida. Não tenho raiva nenhuma. Só tenho a vida. Outra. E as saudades.
2 Comments:
e são as saudades que matam a vida!
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