Thursday, July 28, 2005

Passam diante de mim, estas gaivotas...

... e o que tenho para te dizer... é que é absurdo tudo isto. Absurda a água que vejo da janela. O dia cinzento, esta água cinzenta que me aproxima do mar. Como a ti te aproximava. Embora eu, sem a bicicleta em que voavas, com as gaivotas, nestas tardes assim. Paradas.
O convívio com as gaivotas tem-se estreitado, nestes dias, sem ti. Nestes longuíssimos dias em que ando a enganar a tua morte. Ou a minha vida. O que é o mesmo.
Estou muito diferente, que queres que te diga? O treino diário a que me obriga a evidência (também quotidiana) da tua morte faz-me tão diferente do que fui quando ainda estavas vivo e agarravas a bicicleta (era vermelha a tua bicicleta. Dei a tua bicicleta vermelha. Sabes? E às vezes vejo o teu pai passar montado nela. Agarrado a ela como se agarraria a ti se soubesse que um dia a tua bicicleta vermelha ficaria para trás, na precipitação da tua morte). Tão diferente e, contudo, eu. Não sei que quererias que te dissesse a respeito disto. Deste absurdo reparar no movimento das asas das gaivotas sobre as águas cinzentas da ria, num dia assim cinzento e murcho, como as pétalas das flores que raramente me davas. Morrem depressa as flores, como tu. Talvez por isso nunca gostaste de me dar flores. Guardaste toda a fragilidade das pétalas para o dia em que, absurdamente, deixaste de agarrar a bicicleta (era vermelha e ainda é) nos primeiros dias de Março. Partias com tanto vento que, ao ver-te pedalar, não se via em ti a morte, mas a vida. E estas gaivotas rasantes a estas janelas tão grandes onde, às vezes, lá em baixo, vinhas chamar-me. Amor. E eu escancarava a janela e perguntava-te se querias subir tu ou se descia eu. Escolhe tu. Dizias. E a bicicleta (vermelha) agarrada à tua mão. E eu escolhia. E às vezes era eu que descia e outras eras tu que subias. Dessas vezes, deixavas a bicicleta (que sem ti, era sempre vermelha, mas não tinha asas, parecia uma gaivota murcha) encostada à porta do sítio onde tenho esta janela grande, com a Ria ao fundo e as gaivotas rasantes. Deste sítio em que vou perdendo os dias. Todos os dias em que não estive contigo. E não ganhei o teu sorriso. Ou, simplesmente, a tua vida. Deste sítio onde estou agora triste. E tão diferente. Deste sítio de onde não quero sair porque me parece que hás-de aparecer lá em baixo, com a bicicleta vermelha, que agora roubaste ao teu pai, para me chamar. Amor.
Não sei o que dizer-te desta diferença que sinto no modo como reparo agora nas coisas todas só para perceber que não existes. Que já não nos sentamos os dois, nas tardes tão grandes de domingo, a ler os livros que me davas e que ficaram para Sempre. Os livros que eram as flores que não me querias dar. Porque morriam para Sempre. Não sei o que dizer-te a cada vez que abro os livros que eram as flores e de dentro deles salta a tua bicicleta e tu todo. Tu rodeado desta cinza das asas das gaivotas. E eu, aceno-te de fora. Chamo-te. Amor.
Tenho tentado reparar nas coisas como se existisses ainda e pedalasses em mim, como o sangue. Na bicicleta vermelha. Mas não sei para onde me escorreu a paciência e para onde foram aquelas tardes de domingo. Tenho tentado chamar amor, lá em baixo, a ver se me apareço cá de cima. Mas a pessoa que me aparece é sempre tão diferente de mim quando era eu que te aparecia. Nessa altura não reparava como é triste o movimento das asas das gaivotas. Como as pontas das asas são escuras e se vão aclarando para atingir o branco. Nessa altura as gaivotas vestiam-se de vermelho e eram a tua bicicleta. A tua vida. O vendaval que tu eras. O gozo que tu tinhas pelas coisas. Pela vida.
Tenho tentado chamar amor a tanta gente, em toda a parte. Aqui neste sítio. Noutro sítio. Mas é sempre a bicicleta que salta do silêncio em que me vejo, depois, mal acabo de pronunciar o amor. A bicicleta. Amor. E passam diante de mim estas gaivotas. E, na verdade, 'o que eu queria dizer-te nesta tarde nada tem em comum com as gaivotas'.

18 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Já alguma vez viste uma laranjeira em flor ?
Quanos milhares de flores de uma laranjeira têm de morrer para que uma só sobreviva e dê finalmente uma laranja ... E quantas laranjas pequeninas têm de morrer (com vento ou outras adversidades) para que sobreviva uma e chegue a amadurecer... E quantas das que amadurecem são colhidas ?
A vida é um milagre ! Por isso é tão grande a perda de uma vida que passou todas essas fases e, não obstante, socumbiu perante os nossos olhos atónitos !
Anónimo das 11

29.7.05  
Blogger Elisa said...

Pois...

30.7.05  
Anonymous Anonymous said...

Aqui não são as palavras que falam...
É o vento que grita, uma bicicleta que chora, um tempo que voou e foi... em cima de gaivotas!
E mais não digo porque...

30.7.05  
Blogger Elisa said...

Obrigada Sandra... eu tinha razão?

1.8.05  
Blogger salomé said...

O cenário negro que é a morte e o cinzento da nossa vida que vem com ela parecem ganhar cor com as tuas palavras. e fazes com que a perda seja um ganho. pelo menos para nós, leitores. desculpa-me, desejava que assim não fosse, mas a tua dor é um refúgio de beleza para mim.

1.8.05  
Blogger Elisa said...

Isto é só uma celebração... não da dor, mas da vida que eu tive. E que vou tendo. Marcada pela morte, como por outra coisa qualquer. Obrigada Salomé.

1.8.05  
Anonymous Anonymous said...

culpem o tempo porque o tempo é o fogo que nos consome a vida, culpem o homem porque ele manipulou a verdade existencial e fez deste mundo um inferno para as outras especies viverem.o medo é legitimo mas é banal

fim do verão

3.9.05  
Blogger Manolo Heredia said...

ENTÃO ELISA, QUE É FEITO DE TI?

8.9.05  
Anonymous Anonymous said...

Disseram-me uma vez:
“Um homem pode sempre fugir, seja lá do que for, mas nunca esconder-se”.
Ao que contrapus:
“Ou então pode sempre esconder-se, seja lá do que for, mas nunca fugir”.

29.9.05  
Blogger Elisa said...

Anónimo. De acordo. Banal e legítimo, o medo. Tenho medo de muito pouca coisa, eu.

Manolo
O que é feito de mim? Isso gostava eu de saber!

Dale
eu fujo muitas vezes. E é possível. E fácil.

29.9.05  
Blogger Manolo Heredia said...

Espero que estejas bem, que tenha sido só uma desmotivação passageira que te afastou daqui.
É que senti culpa do que escrevi:
Quem sou eu para falar da Morte, eu que ainda tenho pai e mãe e mulher e filhos? todos de boa saúde!

4.10.05  
Anonymous Anonymous said...

eu so muito novinha ainda e andava a procura de uma musica e so me lembrava k na letra tinha "ainda tem o seu perfume pela casa" entao pus me a pesquisar isso no google pa ver se encontrava algum site k tivesse essa musica pa tirar o titulo e sacar o emule, entao dei de cara com o teu/seu blog e fikei encantada com a maneira como escreve, eu adoro ler um texto eu k fike a pensar "mas como é k kd eu tenhu k escrever kk coisa n m lembro d comparações tao bonitas como estas?k fikem tao bem como estas?k nos parecem absurdas d inicio, mas k ao longo do texto vamo nos apercebendo k fazem td o sentido... foi o k eu achei da tua comparação neste texto, esta espetacular e ate m vez xorar lol eu sou mt nova msm tenhu apenas 17 anos, e sou mt sensivel e kd leio kk texto sobre kk tipo de morte, ponho m logo no lugar da pessoa k supostamente esta a sofrer com a morte.sei k este tipo de textos me deixam com um no na garganta pk se perdesse uma pessoa mt kerida n sei como reageria, mas sao estes mm tipos de textos k mais gosto de ler, pk m conseguem tokar, deixando m a pensar cm seria cmg? sera k reagia desta ou dakela maneira? eu espero k n t importes k eu imprima alguns textos teus e leve a umas amigas minhas pa lerem, é k os acho mm espetaculares, talvez ate desempenhes alguma profissao relacionada com letras e por isso escreves desta maneira, mas se n é isso deixa m dizer t kk modo k escreves mesmo muito bem.
bjinhus
claudia

24.10.05  
Anonymous Anonymous said...

Do tempo,
que o tempo levou,
recordo
o doce sorriso
nos teus labios.
E mesmo que o tempo,
que o tempo levou,
não volte a ser tempo,
resta-me a doce
recordacão do tempo,
que o tempo levou.

5.1.06  
Anonymous Anonymous said...

...não é prosa o que escreveu...
...é um dos mais lindos poemas de amor que eu já li...

não se engane
não se esconda atrás da prosa

10.1.06  
Blogger JPN said...

porque é que vim agora dar aqui? porque é que me sento a saborear a beleza da tua tristeza assim, alegre. vida celebrada.

17.1.06  
Anonymous Anonymous said...

Depois das tuas palavras, deixo o meu silêncio (profundo).Deixo também as palavras (as rugas) de Bonnefoy: Que le froid par ma mort se léve et prenne un sens. Pouco, tão pouco, para tanta dôr.

13.5.06  
Anonymous Anonymous said...

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22.2.07  
Anonymous Anonymous said...

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7.3.07  

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