... e o que tenho para te dizer... é que é absurdo tudo isto. Absurda a água que vejo da janela. O dia cinzento, esta água cinzenta que me aproxima do mar. Como a ti te aproximava. Embora eu, sem a bicicleta em que voavas, com as gaivotas, nestas tardes assim. Paradas.
O convívio com as gaivotas tem-se estreitado, nestes dias, sem ti. Nestes longuíssimos dias em que ando a enganar a tua morte. Ou a minha vida. O que é o mesmo.
Estou muito diferente, que queres que te diga? O treino diário a que me obriga a evidência (também quotidiana) da tua morte faz-me tão diferente do que fui quando ainda estavas vivo e agarravas a bicicleta (era vermelha a tua bicicleta. Dei a tua bicicleta vermelha. Sabes? E às vezes vejo o teu pai passar montado nela. Agarrado a ela como se agarraria a ti se soubesse que um dia a tua bicicleta vermelha ficaria para trás, na precipitação da tua morte). Tão diferente e, contudo, eu. Não sei que quererias que te dissesse a respeito disto. Deste absurdo reparar no movimento das asas das gaivotas sobre as águas cinzentas da ria, num dia assim cinzento e murcho, como as pétalas das flores que raramente me davas. Morrem depressa as flores, como tu. Talvez por isso nunca gostaste de me dar flores. Guardaste toda a fragilidade das pétalas para o dia em que, absurdamente, deixaste de agarrar a bicicleta (era vermelha e ainda é) nos primeiros dias de Março. Partias com tanto vento que, ao ver-te pedalar, não se via em ti a morte, mas a vida. E estas gaivotas rasantes a estas janelas tão grandes onde, às vezes, lá em baixo, vinhas chamar-me. Amor. E eu escancarava a janela e perguntava-te se querias subir tu ou se descia eu. Escolhe tu. Dizias. E a bicicleta (vermelha) agarrada à tua mão. E eu escolhia. E às vezes era eu que descia e outras eras tu que subias. Dessas vezes, deixavas a bicicleta (que sem ti, era sempre vermelha, mas não tinha asas, parecia uma gaivota murcha) encostada à porta do sítio onde tenho esta janela grande, com a Ria ao fundo e as gaivotas rasantes. Deste sítio em que vou perdendo os dias. Todos os dias em que não estive contigo. E não ganhei o teu sorriso. Ou, simplesmente, a tua vida. Deste sítio onde estou agora triste. E tão diferente. Deste sítio de onde não quero sair porque me parece que hás-de aparecer lá em baixo, com a bicicleta vermelha, que agora roubaste ao teu pai, para me chamar. Amor.
Não sei o que dizer-te desta diferença que sinto no modo como reparo agora nas coisas todas só para perceber que não existes. Que já não nos sentamos os dois, nas tardes tão grandes de domingo, a ler os livros que me davas e que ficaram para Sempre. Os livros que eram as flores que não me querias dar. Porque morriam para Sempre. Não sei o que dizer-te a cada vez que abro os livros que eram as flores e de dentro deles salta a tua bicicleta e tu todo. Tu rodeado desta cinza das asas das gaivotas. E eu, aceno-te de fora. Chamo-te. Amor.
Tenho tentado reparar nas coisas como se existisses ainda e pedalasses em mim, como o sangue. Na bicicleta vermelha. Mas não sei para onde me escorreu a paciência e para onde foram aquelas tardes de domingo. Tenho tentado chamar amor, lá em baixo, a ver se me apareço cá de cima. Mas a pessoa que me aparece é sempre tão diferente de mim quando era eu que te aparecia. Nessa altura não reparava como é triste o movimento das asas das gaivotas. Como as pontas das asas são escuras e se vão aclarando para atingir o branco. Nessa altura as gaivotas vestiam-se de vermelho e eram a tua bicicleta. A tua vida. O vendaval que tu eras. O gozo que tu tinhas pelas coisas. Pela vida.
Tenho tentado chamar amor a tanta gente, em toda a parte. Aqui neste sítio. Noutro sítio. Mas é sempre a bicicleta que salta do silêncio em que me vejo, depois, mal acabo de pronunciar o amor. A bicicleta. Amor. E passam diante de mim estas gaivotas. E, na verdade, 'o que eu queria dizer-te nesta tarde nada tem em comum com as gaivotas'.