Tuesday, October 25, 2005

A
minha
vida
segue
noutros
sítios
dentro
de
momentos


ou
melhor

AGORA!

continuarei, em qualquer momento, no Bebedeiras de Jazz




Thursday, July 28, 2005

Passam diante de mim, estas gaivotas...

... e o que tenho para te dizer... é que é absurdo tudo isto. Absurda a água que vejo da janela. O dia cinzento, esta água cinzenta que me aproxima do mar. Como a ti te aproximava. Embora eu, sem a bicicleta em que voavas, com as gaivotas, nestas tardes assim. Paradas.
O convívio com as gaivotas tem-se estreitado, nestes dias, sem ti. Nestes longuíssimos dias em que ando a enganar a tua morte. Ou a minha vida. O que é o mesmo.
Estou muito diferente, que queres que te diga? O treino diário a que me obriga a evidência (também quotidiana) da tua morte faz-me tão diferente do que fui quando ainda estavas vivo e agarravas a bicicleta (era vermelha a tua bicicleta. Dei a tua bicicleta vermelha. Sabes? E às vezes vejo o teu pai passar montado nela. Agarrado a ela como se agarraria a ti se soubesse que um dia a tua bicicleta vermelha ficaria para trás, na precipitação da tua morte). Tão diferente e, contudo, eu. Não sei que quererias que te dissesse a respeito disto. Deste absurdo reparar no movimento das asas das gaivotas sobre as águas cinzentas da ria, num dia assim cinzento e murcho, como as pétalas das flores que raramente me davas. Morrem depressa as flores, como tu. Talvez por isso nunca gostaste de me dar flores. Guardaste toda a fragilidade das pétalas para o dia em que, absurdamente, deixaste de agarrar a bicicleta (era vermelha e ainda é) nos primeiros dias de Março. Partias com tanto vento que, ao ver-te pedalar, não se via em ti a morte, mas a vida. E estas gaivotas rasantes a estas janelas tão grandes onde, às vezes, lá em baixo, vinhas chamar-me. Amor. E eu escancarava a janela e perguntava-te se querias subir tu ou se descia eu. Escolhe tu. Dizias. E a bicicleta (vermelha) agarrada à tua mão. E eu escolhia. E às vezes era eu que descia e outras eras tu que subias. Dessas vezes, deixavas a bicicleta (que sem ti, era sempre vermelha, mas não tinha asas, parecia uma gaivota murcha) encostada à porta do sítio onde tenho esta janela grande, com a Ria ao fundo e as gaivotas rasantes. Deste sítio em que vou perdendo os dias. Todos os dias em que não estive contigo. E não ganhei o teu sorriso. Ou, simplesmente, a tua vida. Deste sítio onde estou agora triste. E tão diferente. Deste sítio de onde não quero sair porque me parece que hás-de aparecer lá em baixo, com a bicicleta vermelha, que agora roubaste ao teu pai, para me chamar. Amor.
Não sei o que dizer-te desta diferença que sinto no modo como reparo agora nas coisas todas só para perceber que não existes. Que já não nos sentamos os dois, nas tardes tão grandes de domingo, a ler os livros que me davas e que ficaram para Sempre. Os livros que eram as flores que não me querias dar. Porque morriam para Sempre. Não sei o que dizer-te a cada vez que abro os livros que eram as flores e de dentro deles salta a tua bicicleta e tu todo. Tu rodeado desta cinza das asas das gaivotas. E eu, aceno-te de fora. Chamo-te. Amor.
Tenho tentado reparar nas coisas como se existisses ainda e pedalasses em mim, como o sangue. Na bicicleta vermelha. Mas não sei para onde me escorreu a paciência e para onde foram aquelas tardes de domingo. Tenho tentado chamar amor, lá em baixo, a ver se me apareço cá de cima. Mas a pessoa que me aparece é sempre tão diferente de mim quando era eu que te aparecia. Nessa altura não reparava como é triste o movimento das asas das gaivotas. Como as pontas das asas são escuras e se vão aclarando para atingir o branco. Nessa altura as gaivotas vestiam-se de vermelho e eram a tua bicicleta. A tua vida. O vendaval que tu eras. O gozo que tu tinhas pelas coisas. Pela vida.
Tenho tentado chamar amor a tanta gente, em toda a parte. Aqui neste sítio. Noutro sítio. Mas é sempre a bicicleta que salta do silêncio em que me vejo, depois, mal acabo de pronunciar o amor. A bicicleta. Amor. E passam diante de mim estas gaivotas. E, na verdade, 'o que eu queria dizer-te nesta tarde nada tem em comum com as gaivotas'.

Tuesday, July 19, 2005

Estranhas, estas pessoas...

... que se têm cruzado comigo ultimamente. Estranhas. Muito estranhas. Estou farta delas, sabes? Aliás, estou um pouco cansada de todas as pessoas. Gostava que ainda fosses uma delas, para me poder cansar de ti. Também. Nunca aconteceu. Cansar-me. De ti. Só dos outros. E, no entanto, gostava muito que agora mesmo ainda fosses uma pessoa de quem eu pudesse cansar-me. Resta-me cansar-me de mim mesma. Mas isso é difícil. Se me cansar de mim desisto. E se eu desistir, cansada de mim, quem faz o que eu tenho que fazer, quem ri o que eu tenho de rir, quem vê o que eu tenho de ver, quem gosta o que eu tenho de gostar, quem se cansa do que estou cansada? Se ainda me pudesse cansar de ti. Cansava-me de ti. E já tinha uma desculpa muito boa para não me cansar. De mim.

Monday, June 27, 2005

Vamos embora (Vam'bora)

Quando te foram a enterrar. A ti não. Ao que não eras tu. Quando foram enterrar o que não eras tu, levaram-me para um sítio diferente. Estava uma música que nunca tinha ouvido contigo. Penso. Já tinha ouvido. Mas contigo não. Ou nunca tinha reparado nisso. A música era esta. A letra era esta.

«Entre por essa porta
agora
e diga que me adora
você tem meia hora
para mudar a minha vida
vem
vam'bora
que o que você demora
é o que o tempo leva
ainda tem o seu perfume pela casa
ainda tem você na sala
porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro
dentro de um livro
dentro da noite veloz
ainda tem o seu perfume pela casa
ainda tem você na sala
porque meu coração dispara
quando tem o seu cheiro
dentro de um livro
na cinza das horas»
(Adriana Calcanhoto)

Não sei porquê, sabendo, que chorei. Alguém disse. Desliguem isso.
Mas quando ouço esta música, como agora. Uma música. Uma canção que nunca esteve ligada a ti. Lembro-me. E apetece-me ir embora. Ir para dentro. Para dentro de ti. Para dentro dos teus livros que agora são meus. Para dentro do teu cheiro. Bolas. Não podias entrar por esta porta. Agora. Dizeres o que sempre disseste. Ficares. Apetece-me ir embora. Leva-me.

Friday, June 17, 2005

Acordar tarde

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr
e a noite foi tão luminosa quanto a mota que falhou a curva
- e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos por assassinos
- e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado dos amantes ocasionais - nada a fazer
irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso
simulando a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

- Al Berto / Jorge Palma-

Friday, June 03, 2005

Porque não me vês?

«Meu amor adeus
Tem cuidado
Se a dor é um espinho
Que espeta sozinho
Do outro lado
Meu bem desvairado
Tão aflito
Se a dor é um dó
Que desfaz o nó
E desata um grito
Um mau olhado
Um mal pecado
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono
orque não me vês
Maresia
Se a dor é um ciúme
Que espalha um perfume
Que me agonia
Vem me ver amor
De mansinho
Se a dor é um mar
Louco a transbordar
Noutro caminho
Quase a espraiar
Quase a afundar
E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono»

Fausto Por este Rio Acima

Thursday, June 02, 2005

A vida que resta é outra vida

Um dia destes alguém me perguntou se eu não sentia raiva. De ti. Após o espanto de te saber irremediavelmente sem a tua vida. Após o espanto de me saber irremediavelmente sem a tua vida. Que era também minha e me tiraste... sobraram dois ou três segundos de raiva. Alguns vagos desejos do poder de te ressuscitar para te bater. Até à morte. Depois desses segundos, eu, que nunca me lembro de sonhar, ou do que sonho... sonhei contigo e até me lembrei de haver sonhado.
E o que sonhei eras tu a entrar pela porta da nossa casa (que já não é nossa, nem sequer minha) com um braçado de livros. Dizias-me que tinhas viajado. Não me lembro já onde tinhas ido. No meu sonho. E que me trazias (como quase todos os dias) aqueles livros. Não me lembro dos títulos... mas gostei de todos eles como se os tivesse lido. A raiva? Abraçaste-me com força. Quando acordei compreendi-te como talvez nunca te tivesse compreendido. Decidi que estavas em viagem. Que haverias de me trazer mais livros (que eu leria) no regresso. A raiva? Afogou-se no abraço. Compreendi-te e compreendi-me. Quando acordei. Compreendi que já não estás. Compreendi que eu ainda estou. Que a vida que (me) resta é outra vida. Que a vivo como se ainda estivesses. Que perpetuo o que tu foste nos meus gestos. Que compro os livros que me comprarias se a tua morte não fosse o que restasse nesta outra vida. Não tenho raiva nenhuma. Só tenho a vida. Outra. E as saudades.
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