Thursday, March 31, 2005

In love with a No Good Man...

... o costume, como saberias, se ainda pudesses saber. Se ouvisses esta música (guess who sings it?) gostarias seguramente. Arriscariamos mesmo uns passos de dança, como tantas vezes o fizemos... Eras um homem bom. O pior são os outros.


No good man

No good man
Loving on a no good plan
never treats me as he should
And that ain't good
he's always bringing me down
He's no saint
Heaven knows that's what he ain't
Spends his money foolishly and not on me
I'm the one who gets the run around

I ought to hate him
but still I love him so
Cos I require love that's made of fire
And in his arms I find always get that kind
No good man
Ever since the world began
there's been other folks like me
Born to be in love with a no good man

I ought to hate him
but still I love him so
Cos you see I require love that's made of fire
And in his arms I find always get that kind
No good man
Ever since the world began
there's been other folks like me
Born to be in love with a no good man
(Dan Fisher, Irene Higginbotham, Sammy Gallop)

Ficar parado...

... antes o poço da morte que tal sorte! Dizia o Sérgio Godinho. Mas, acreditarias se pudesses que muitas vezes o que me apetece é ficar parada. P A R A D A. Completamente imóvel. Lembrar-te-ias se ainda pudesses lembrar-te da minha frase: qualquer dia fecho-me em casa e não saio de lá! Ora pois. A sensação volta e vai e volta e vai. Fechar-me em casa. Não sair. Não querer sair. Não querer nada. Se eu fosse mais eu e menos o que acho que sou... o que também não é grande coisa... um dia destes ía visitar-te. Mas tenho medo que não estejas. E depois?
Não acredites... mesmo se pudesses... não acredites... não sou capaz. Gostava de ser capaz. Mas não sou. Desculpa.

Tuesday, March 29, 2005

Só...

... tenho passado o tempo a fazer coisas de que desconheço o sentido. Tenho passado o tempo a tentar ser uma pessoa melhor, como se fosse possível... Não é possível passar além do facto de ser apenas uma pessoa. Tenho muitas vezes pensado que não vale a pena. Que mais vale estar sossegada, muito quieta, a ver o que acontece, como a nespêra no poema do Mário Henrique Leiria... É que realmente não acontece nada. Ou acontece, mas o sentimento que permanece é o de que nada aconteceu ou de que aquilo que aconteceu não conduziu a nenhum lugar. Nem conhecido, nem desconhecido. Eras o único lugar que eu conhecia. Depois de ti, tenho dificuldade em (re)conhecer outros lugares. Por vezes, tenho a sensação de que os conheço, mas é um sentimento transitório. Passamos o tempo a chegar e a ir embora, sem nos demorarmos o tempo suficiente para chamar nosso a um lugar. Que pode ser um corpo, uma ideia, uma conversa. Estou triste.

Tuesday, March 22, 2005

A memória

Costumo dizer e sabias disso que tenho uma memória fenomenal, para o bem e para o mal. As pessoas não entendem. Ou melhor, é raro as pessoas entenderem-me quando digo isto. Ter boa memória é frequentemente considerado excelente, sobretudo por quem a não tem. Tu tinhas uma memória bastante mais prodigiosa que a minha. Armazenavas informações (eu, por vezes, perguntava-te para que raio era aquilo necessário... aquela lembrança de tantos pormenores, tantas informações, tantos lugares, tanta gente, tanta equação, tanta fórmula... mas deveria, se pudesse, dizer-te que aquilo tudo me foi muitas vezes preciso. Ponto). Por estes dias alguém, a quem eu atirei, munida de algum convencimento, a frase costumeira da boa memória para o bem e para o mal, me disse uma coisa que me deixou a pensar. Disse-me mais ou menos isto: 'eu também tinha uma memória dessas, mas a certa altura tive de apagar coisas, caso contrário, ter-me-ia suicidado'. Talvez...

Antes de ontem, ontem, hoje mesmo...

...creio ter encontrado uma cabeça. Desculpar-me-ias a incapacidade de não saber dizer-te de outra maneira. Mas, na verdade encontrei uma cabeça e suspeito que gostarias dela como eu gostei. Quer dizer, quem diz uma cabeça diz o resto, muito embora o resto se resuma ao mesmo, se é que me entenderias. Foi antes de ontem, ou ontem ou mesmo hoje que a cabeça veio de(ao)encontro à minha. Quiz dizer-te mas não pude. Ou secalhar não quiz, mesmo não podendo. Dir-te-ia: encontrei uma cabeça parecida com a minha cabeça quando a minha cabeça não anda demasiado ocupada a tentar ser outra cabeça. Hoje alguém me perguntou 'e então?' Não fui capaz de descrever o encontro, a cabeça, pelo que me limitei a despejar informações inúteis e variáveis sociográficas. Depois pensei que se tivesses sido tu a formular a pergunta, a minha resposta teria sido demasiado comprida, mas tu terias entendido, certamente. Sobretudo aquela parte em que te diria usando sempre muitas palavras que sentia alguém a tropeçar dentro da minha cabeça. Vagamente antes de ontem, ontem, hoje mesmo, houve alguém de quem gostei e de quem, suspeito, haverias de gostar.

Friday, March 18, 2005

I fall in love too easily...

Eu se estivesse no teu lugar teria saudades de muitas coisas, se isso fosse possível. Ter saudades já não sendo. Teria por exemplo saudades minhas, se estivesse no teu lugar. Se fosse possível sei que terias saudades dos meus olhos. Eu tenho saudades que tenhas saudades dos meus olhos. Eu tenho saudades de sentir que era fácil apaixonar-me por ti. Lembras-te do teu sorriso? Como diz aquele poema do Eugénio de Andrade...

"Creio que foi o sorriso,

sorriso foi quem abriu a porta.

Era um sorriso com muita luz

lá dentro, apetecia

entrar nele, tirar a roupa, ficar

nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso."


O teu sorriso era assim, tal e qual. A tua mãe disse-me uma vez que também tinha saudades do teu sorriso. É o mais bonito que conheço, sabes? Ainda é o mais bonito que conheço. Foi tão fácil apaixonar-me por um sorriso assim. Tenho saudades de entrar e de estar nua nesse teu sorriso que agora já não é. Tenho saudades de correr, navegar e morrer dentro desse teu (já não) sorriso. Tenho saudades de me apaixonar recorrentemente por ele.
Sabes é como naquele standard de jazz (que ambos preferíamos escutar interpretado pela Sarah Vaughn) I fall in love too easily... I fall in love too fast. Ainda me continuo a apaixonar facilmente. Mas gostava que, podendo tu continuar a acreditar, acreditasses que (outro standard, mas aqui era o Chet Baker que gostávamos mais de ouvir)contigo nunca me senti 'alone together'. Mesmo agora, apaixono-me por ti continuamente. E acompanhas-me para toda a parte.

Thursday, March 17, 2005

A vida passa lá fora... na altura de uma asa

Se ainda pudesses saber, saberias que eu gosto de poesia. De frases com luz e gente e sentimentos e universos dentro. Como esta do Torga. Encheste-me os dias de palavras. Não porque falasses muito. Não era o caso. Eras silencioso e optimista. Ao contrário de mim. Sempre a antecipar o que não podia ser antecipado e a tecer as teias de um incomensurável pessimismo. Se pudesses ainda saber, devias gostar de saber que pus na gaveta mais escondida do quarto mais ao fundo da cabeça a antecipação e o pessimismo. Aprendi a ser como tu. Optimista. E com as palavras só por dentro. Ou eu por dentro delas. Com frequência elas a povoarem-me. Mas encheste-me os dias de palavras. Todos os dias, quase, me trazias livros novos. Lembrar-te-ias com certeza se ainda te pudesses lembrar. Deste-me sempre o que eu mais gostava. Nunca foste uma desilusão. Só no fim e ainda assim... não sei. E davas-me tudo sem que eu te pedisse nada. Não sei de mais ninguém assim. Encheste-me as horas, os dias, os anos com as memórias de um futuro que nunca havia de chegar. Foste embora silenciosamente. Não admira. O que me surpreendeu foi não teres deixado nenhuma palavra.

A vida e tudo o mais

que achas tu que as pessoas procuram? Nunca tiveste jeito para discutir estas coisas. Nem paciência. Hoje tive uma 'daquelas' conversas com um amigo. Demolidoras. Não pelo interlocutor, mas pelo conteúdo. Daquelas que não gostavas de ter. De que fugias a sete pés se pudesses. Fiquei a precisar de colo. Porque por mais que tentemos não pudemos evitar pensar que... que andamos (andámos desde sempre?) a fazer tudo certo mas com as pessoas erradas. Tipo 'erros de casting'ou de 'entrada em cena'. Estás a ver o filme? A vida, pois. O resultado, concluímos nós... é que nos cansamos. E cansados estamos ambos de errar sistematicamente. A apostar tudo no cavalo errado. Gestos que já não sabemos repetir, porque os fizemos tantas vezes que agora já não fazem sentido. Conversas que não queremos ter porque já as tivemos tantas vezes que cada palavra nos soa a um texto decorado. E, no entanto, gostávamos de repetir gestos e conversas. E sorrisos. Porque é que achas que, a certa altura, nos cansamos da vida e de tudo o mais? Achas que é mesmo assim? Que nos cansamos de pensar encontrar o que não procuramos e de nunca encontrar o que pensamos procurar? Estou cansada, sabes? De me dividir. Tenho andado numa de revivalismo a ouvir o Jorge Palma. Acho que só agora ouvi com ouvidos de ouvir o 'Só'. Duas almas em guerra, fazer a cama na encruzilhada e chamar casa a esse lugar? Estás a ver o género... Decerto te lembras. Nós nunca ouvíamos Jorge Palma, a não ser em algum bar a acompanhar a guiness... mas sei que o ouvias antes de mim, tal como eu o ouvia antes de ti. Coisas da vida e tudo o mais. Por vezes penso que quando te conheci não foste (ainda não eras) um erro de casting e entraste em cena na altura certa. Foi isso que nos conduziu a uma certa vida e a um certo tudo o resto. Isso perdeu-se agora que já não estás aqui. A cada erro, apercebo-me que contigo foi diferente porque eras tu e porque eramos tão novos e tão cheios de paciência... que só podia ter sido assim. A cada erro, agora, vou sabendo que já não quero ninguém para construir nada. Porque já não sou capaz. Não, não foste tu. Fui mesmo só eu. E a porra das circunstâncias que criámos.

Wednesday, March 16, 2005

Mar adentro

«o pior para um pai não é morrer-lhe um filho. É saber que esse filho quis morrer» (Mar Adentro - Alejandro Amenabar).

Pensei mais nos teus pais hoje. Na minha incapacidade de saber o que a dor deles encerra. Ou de que tamanho, de que cor é a dor que eles sentem porque quiseste morrer. E morreste. Que pensas tu?

Em ti penso sempre. Como um véu que carrego. Fardo que não é pesado. Mas acompanha. Não é pesado porque não foste meu filho. Foste uma outra coisa. A dor - dizem - não tem medida. Nem peso. Nem textura. Se te carrego como véu é porque agora, apesar de ainda estares morto, sou capaz de respeitar a escolha que fizeste.


Não saiste daqui como Ramón Sampedro nem por tão óbvias e transparentes razões. Foi como foi e eu nada sei. Agora sei muito menos do que sabia quando ainda não estavas morto e eu desconhecia que um dia o estarias. Até tu, eu sei, eu sei, desconhecias que um dia já não serias.


Mas dizia-te que agora sou capaz de compreender que o deixares de estar vivo foi uma opção pessoal, provavelmente (ou seguramente?) a única verdadeiramente livre que tomaste. A única que podemos tomar assim.

O meu problema não é apenas não estares aqui onde eu existo. O meu problema maior é não estares em parte nenhuma. Asseguro-te que te tenho procurado. Não é difícil achar o que foste, dentro dos teus livros, da tua música. Das fotografias que (ainda) não envelheceram. Mas encontrar-te é impossível, como sabes. Os bocados do que eras não bastam para preencher esta falta que me fazes.
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