Wednesday, April 20, 2005

É pela cabeça que os mortos maravilhosamente pesam no nosso coração...

...Assim pesas tu. Apenas retiraria o maravilhosamente. Ou mesmo o peso. Mas é pela cabeça que estás no meu coração.
Um poema do Herberto Helder, como se ainda pudesses ouvir.


Elegia Múltipla



Como se poderia desfazer em mim tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? É pela cabeça que os mortos maravilhosamente pesam
no nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.


Eu próprio levanto a minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza - receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as roas bebem o jeito áereo e a boca
a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campânulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. À beira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos corram deslumbradas
da sua grande luz
nas águas. Existe um nome suspenso
sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos - a tua antiga como o verde
nas pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa rodeada de estreitas
víboras -
sobe do meu coração até que a minha cabeça
seja a possessiva, doce cabeça
dos mortos.


(Herberto Helder - Ou o Poema Contínuo (pp. 58-59)

1 Comments:

Blogger Elisa said...

Obrigada. Volte sempre.

20.4.05  

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